Oportunidades são sempre uma chance?
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Oportunidades são sempre uma chance?

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Adriana e José. Ela, 42. Ele, 70. Ela virou motorista da Uber, diante da falta de oportunidades. Ele busca uma oportunidade há 4 meses e passou a noite dormindo numa fila para ser o primeiro atendido num mutirão de emprego em SP, na última terça-feira. Dois dias antes ela morreu vítima de um assalto, quando parou o carro para mais uma corrida. E ali estava ele, na fila, sendo entrevistado ao vivo, pela nossa repórter. Tinha um sorriso no rosto. E eu me lembrei da Adriana, da família dela.

“Por que o senhor está sorrindo?”, perguntou a repórter Priscila Yazbeck ao aposentado. “Você sorriu e eu devolvi”, respondeu e riu alto. O estúdio da Globo News foi contaminado por aquela alegria inesperada. Como assim, um idoso desempregado passou a noite no relento e está feliz, assim? Seo José mudou nosso dia. Resgatou nossa empatia. A gente desejou aquela capacidade de sentir felicidade, daquela forma. Eu queria abraçar o seo José. E liguei pra contar isso a ele. Não podemos perder a capacidade de sentir isso.

Minutos antes, havíamos exibido uma foto da Adriana com a neta pequena no colo, enquanto outra repórter trazia informações sobre o enterro e as investigações. Adriana foi morta com um tiro no pescoço. Adriana estava tentando uma oportunidade, numa semana em que três motoristas de aplicativo foram assassinados só na região metropolitana de São Paulo. É triste, é injusto. E não podemos perder a capacidade de sentir isso.

Nesta mesma semana (também) celebramos e noticiamos o Dia Mundial da Inclusão da Pessoa com Deficiência. E naquela mesma fila do José estava o Glenn, um jovem surdo, buscando uma oportunidade. Ele contava isso ao vivo, a nossa repórter, com a ajuda do Fernando, um intérprete de libras ligado ao Sindicato dos Comerciários. Glenn também nos sorriu animado e eu soube hoje que saiu de lá com três entrevistas marcadas. Glenn mudou nosso dia. Mas foi o Fernando que ficou na minha cabeça. Também liguei pra contar isso a ele.

Quase 13 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência. Não querem ser chamados de guerreiros, nem querem sobreviver. Querem viver e se sentirem iguais. Porque são. Assim como os quase 13 milhões os desempregados brasileiros querem sorrir. E sorrindo, ensinam.

Eu realmente liguei para Fernando e José.

“Eu estava lá para ajudar. Fiz o curso de intérprete de libras porque um dia vi dois surdos conversando no metrô e quis entender o que diziam. Me sinto um ponte, um acesso e essas pessoas merecem. Tudo é mais difícil pra elas e não desistem, sabe?”

“Não está fácil, mas eu gosto da minha vida, faço força. E penso nas pessoas que estão na rua, não tem o que comer. Como se estivesse acontecendo comigo. Eu tenho aquela empatia, sabe?”

Sei.

*Quando terminei esse texto de estreia a Agatha ainda não tinha morrido com um tiro nas costas, dentro de uma Kombi, quando voltava pra casa com seu avô, no Complexo do Alemão. É a décima sexta criança vítima de bala perdida na região metropolitana do RJ em 2019, de acordo com a plataforma Fogo Cruzado. Como ignorar? Não neste espaço que desejo ser troca com vocês a respeito de nossas anestesias sociais. Foi quando entendi que a morte precoce, violenta e dolorosa dessa menina de 8 anos também era uma oportunidade, uma chance de reflexão sobre como vivemos e sentimos. Agatha e os personagens da vida real que vocês conhecem nas próximas linhas. E a partir de agora, nesta coluna.