O que determina um futuro?
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“Imagina que quando a gente tem uma muda, quer que vire uma árvore bem frondosa, com muitos frutos. A gente cuida, põe numa terra mais fofinha, protege do ataque dos bichinhos, tira as folhas doentes, poda as que podem prejudicar o crescimento. Quando a gente não cuida desses aspectos da educação, está desconsiderando essas crianças. É como dizer: então tudo bem se elas não forem a árvore frondosa, teremos outras, essas não precisam existir”.

Na manhã da última quinta-feira, 73 crianças se aglomeravam, muitas de pé, num ônibus escolar superlotado. A cena se passou na zona rural de Cajamar, cidade da região metropolitana de São Paulo. O desrespeito com nosso futuro foi registrado, em foto, por fiscais do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo que checavam as condições do transporte de alunos da rede municipal em centenas de cidades paulistas. Em 40% dos veículos fiscalizados, os alunos não usavam cinto de segurança. Mudas potentes, em crescimento, na direção de tantos futuros possíveis.

“Elas se colocam num lugar da sociedade de que não precisam, nem merecem serem cuidadas. Ali começa a relação com a aprendizagem, com o que vai se entender por educação”, completou a educadora Mônica Gardelli quando telefonei para ela para dividir meu espanto com a situação noticiada no meu jornal - e que não era nova.

Para além dos já graves riscos físicos, quando não teriam um cinto para segurá-los em um possível acidente, esses alunos não estão sendo olhados. Uma parte da sociedade vem sendo sumariamente ignorada e isso está nos adoecendo socialmente.

Social. Assistência. Precisamos nos ajudar. Todos merecemos futuros possíveis.

Serviço Social. Profissão que escolheu Danielle, uma carioca de 36 anos que trouxe lucidez e amor durante um debate que fizemos, esta semana, sobre os gargalos no sistema de adoção do país. Danielle tem a minha idade, com uma história pra contar, portas para abrir e muitas mudas para regar. Danielle cuida do futuro do país, conversamos por telefone neste sábado e vocês merecem conhecê-la.

Danielle foi primeira com diploma do ensino superior da família e há 15 anos conhece diariamente os ciclos de pobreza que condenam o jardim de milhares de famílias no Rio de Janeiro. “Pra não ter tanto abrigo, a gente precisa de creche, escola integral, oportunidade de trabalho. Chance de morar num lugar digno pra que esses pais possam cuidar dos seus filhos. Não basta conseguir uma família adotiva pra uma criança, outras nascerão.”

Quando a gente nasce uma porta se abre. Ali adiante tem uma casa? Quantas janelas, qual o tamanho delas? Quanto tempo tenho pra atravessar? Mais pra frente tem um novo jardim? O que determina nosso futuro? Um dia? Uma manhã num ônibus superlotado, a caminho da escola?

Foi Danielle quem me fez pensar sobre “portas”.

“Mais que abrir portas, a gente precisa mostrar que as pessoas têm direito de entrar por aquela porta. A gente não briga por algo que não sabe ser direito nosso. Crianças que crescem num ambiente em contato com a violência, com a privação, sem referência, passam a acreditar que não podem. Eu cresci com meus pais dizendo que eu podia, que, se eu estudasse, conseguiria. Seja isso verdade ou não, é a mola mestra da sua vida.”

Perguntei sobre as mudas, e Danielle me disse: “Existe muito preconceito. É preciso enxergar aquela criança como potência, que precisa ser estimulada. Em qualquer país desenvolvido, a primeira infância é muito estimulada. Desde quando pobreza é crime? Alguém parou pra pensar na potência dela?”

Pelos nossos futuros, vamos parar pra pensar?

Deixo duas notas pra vocês. Uma da assistente social Danielle e outra da prefeitura de Cajamar, a respeito da situação do transporte escolar na cidade. Não me levem a mal, mas começo com a Danielle.

“Peço que as pessoas não desistam uma das outras. Para legisladores, executores, a sociedade, que todos lembrem: as pessoas são muito importantes. O maior investimento é nas pessoas."

*

Em nota, a prefeitura Municipal de Cajamar informa que “irá apurar a denúncia e adotará medidas para solucionar o problema e atender recomendação do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo".

"Ressaltamos que desde 2015 o município de Cajamar sofreu uma crise político-administrativa com a troca de 14 prefeitos num período de seis anos, após a cassação do gestor eleito em 2012. A atual administração está há exatos 5 meses conduzindo a prefeitura após eleição suplementar realizada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SP), em março de 2019.

Informamos ainda, que, nos últimos três meses a Rede Municipal de Ensino de Cajamar foi contemplada com a implantação do ‘Projeto Identidade Cajamar’, programa recém-lançado pela atual administração com a entrega inédita de 14 mil uniformes escolares, reforma e ampliação de escolas através do plano municipal ‘Colégio do Futuro’, valorização dos profissionais de educação através do projeto de reelaboração da proposta curricular articulada a Base Nacional Comum Curricular (BNCC-MEC), além da restruturação de todo o setor de nutrição, com elaboração de novo cardápio na merenda escolar. Atualmente, a rede municipal de educação conta com cerca de 14 mil alunos matriculados em 33 unidades municipais.”