O primeiro cometa interestelar
Blog do Cássio Barbosa

O primeiro cometa interestelar

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Você se lembra do Oumuamua? O nome esquisito deve te despertar a memória. Se isso não aconteceu, eu falei sobre ele um tempinho atrás e você pode ler tudo a respeito aqui. Em um resumo rápido, em outubro de 2017, foi anunciado que um visitante de outro sistema estelar havia sido identificado e estava visitando o Sistema Solar. Não se tratava de uma nave ou ser alienígena, mas de um asteroide. Ou cometa.

O objeto em questão foi flagrado pelo projeto de monitoramento do céu PANSTARRS e, assim que seus elementos orbitais e sua velocidade foram calculados, ficou claro que ele não poderia ter origem no Sistema Solar.

A questão entre asteroide ou cometa não ficou decidida, pois para ser cometa era preciso mostrar cauda e/ou coma, aquela nuvem que se forma ao redor do núcleo. Não foi possível identificar nenhuma das duas coisas, mas pode ser que elas fossem tão sutis que os instrumentos não conseguiram perceber. Pelo sim, pelo não, prevaleceu a classificação de asteroide.

O mais importante é que sua origem não foi contestada e, no final de 2017, o asteroide passou pelo nosso sistema para continuar sua viagem pela galáxia. Em seguida, surgiu uma polêmica em que dois pesquisadores quiseram empurrar a ideia de que esse objeto era, na verdade, um veleiro espacial, mas a ideia não foi muito longe. Depois de identificado como um asteroide de outro sistema planetário, o objeto foi batizado de Oumumua, que significa algo como mensageiro na língua havaiana.

E por que eu estou ressuscitando uma história de quase 2 anos atrás? Porque um outro objeto vindo de outro sistema estelar foi identificado há menos de 10 dias. E dessa vez, sem nenhuma dúvida, foi o primeiro cometa interestelar.

O objeto, catalogado como C/2019 Q4 (Borisov), foi descoberto na Crimeia (território disputado por Rússia e Ucrânia) no dia 30 de agosto pelo astrônomo amador Gennadiy Borisov em um telescópio de 65 cm de diâmetro feito sob encomenda. As primeiras medidas já mostravam que ele poderia ser mais um visitante de outro sistema, mas foi preciso observar mais algumas noites para melhorar o cálculo de sua órbita e as suspeitas se confirmarem.

Com o monitoramento diário do Borisov ficou evidente que ele possui cauda e coma bem tênues, mas isso já foi o suficiente para classifica-lo como um cometa interestelar. Atualmente ele está a uma distância de 420 milhões de km do Sol, viajando a mais de 150 mil km/h. No dia 8 de dezembro ele deve atingir o ponto de sua órbita mais próximo do Sol, chamado de periélio, ao atingir 300 milhões de km de distância dele. É esperado que, no meio de dezembro, ele atinja seu máximo de brilho e poderá ser observado por telescópio profissionais. O núcleo do cometa deve ter em torno de 10 km de diâmetro mas esse e outros detalhes, como jatos e rotação, só poderão ser confirmados quando ele se aproximar mais.

Na época do Oumuamua, muita gente se perguntou se não seria possível enviar uma sonda para estudá-lo, mas naquelas circunstâncias ficou claro que não. Agora. a situação parece ser um pouco mais favorável, mas ainda com uma logística complicada.

De início, seria preciso um desses lançadores potentes, como o Falcon Heavy da SpaceX ou o SLS da NASA, e ainda seria necessário passar por Júpiter para conseguir interceptar o cometa a essa velocidade exagerada. A interceptação se daria em 2020 ou 2021 mas, pela falta de uma sonda pronta e de recursos para bancar o foguete, essa ideia deve ficar apenas na prancheta.

Mas o que aconteceu para, de repente, o Sistema Solar passar a ser visitado assim?

Nada de anormal, apenas o fato de que estamos aumentando consideravelmente o tempo em que monitoramos os céus. Os programas de defesa planetária estão se multiplicando, agregando observatórios amadores à rede. Com isso, o número de objetos descobertos só vai aumentar e casos como esses vão ficar cada vez mais frequentes.

É certo que tanto Oumuamua, quanto o cometa Borisov não devem ter sido os primeiros visitantes de outras estrelas: outros já devem ter passado por aqui sem serem percebidos ou confundidos com asteroides de nosso sistema. Oumuamua e Borisov foram os primeiros a serem identificados como vindos de bem mais longe.