Educação

Em país desigual, aulas suspensas têm impactos diferentes nas famílias

  • Compartilhar
  • Compartilhar
  • Compartilhar

Á VENDA: Este portal de notícias pode ser seu. Entre em contato

As medidas de isolamento social impostas em todo o Brasil obrigaram mudanças bruscas nas rotinas das famílias, especialmente daquelas com filhos em idade escolar. Em alguns estados, as férias de julho foram adiantadas. Em outros, as aulas presenciais foram suspensas, mas as escolas podem oferecer aulas online. Só que a situação incomum exacerba ainda mais as desigualdades brasileiras.


Enquanto algumas famílias se surpreendem com todos os recursos que o ambiente virtual oferece, outras não têm sequer computador em casa e se preocupam com a alimentação dos filhos, agora que muitos não contam com a merenda escolar.


É o caso da diarista Alessandra Santos, mãe de uma criança de oito anos que estuda no colégio federal Pedro II, no Rio de Janeiro e, de um adolescente de 15, aluno da escola estadual Amaro Cavalcanti. Os dois estão de férias, e passam os dias dentro de casa com o pai desempregado e a mãe sem renda, já que não está sendo chamada para fazer faxinas. De acordo com Alessandra, a família está contando com ajuda de familiares e aguarda o auxílio de até R$ 1,2 mil aprovado pela Câmara.


“A gente vai revezando. Um dia a gente come um frango, outro dia eu faço um ovo mexido, cozinho um ovo com legumes. Para as coisas durarem, porque eu não sei o que eu vou fazer com todo mundo em casa e tendo que ter todas as refeições, café da manhã, almoço, lanche e janta. Eu estou me virando aqui para não acabar as coisas rápido”.


Ela diz que seria difícil e caro para os filhos saírem de Ramos, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, e irem até São Cristóvão, onde fica o colégio Pedro II, ou ao Largo do Machado,  onde está o Amaro Cavalcante, apenas para comer a merenda escolar, que continua sendo oferecida.


Sem computador em casa e dividindo internet com uma vizinha, Alessandra não sabe como vai fazer para o filho mais velho frequentar as aulas online, que devem começar em toda a rede estadual do Rio na semana que vem.


“Nada melhor do que aula presencial. As crianças vão estar interagindo com outros amigos, tirando dúvida diretamente com o professor. Na minha humilde opinião, eu acho que esse negócio de aula online não vai fazer 100% legal, mas se for o caso de ficar 3 meses sem aula, vai fazer o quê? Melhor ter essa aula”.


A situação é bem diferente na casa da juíza federal Kátia Balbino, residente em Brasília. A filha, de 11 anos, estuda em uma escola particular que já utilizava o ambiente virtual para realizar tarefas com os alunos, e conseguiu adaptar o sistema para oferecer todas as aulas apenas um dia depois que o fechamento das escolas foi decretado.


“As crianças estavam totalmente preparadas para esse mundo digital. Eles tinham as plataformas nas quais eles já trabalhavam com os professores. As crianças todas já tinham seus equipamentos adaptados com as plataformas, e as crianças estavam acostumadas a fazer deveres online e submeter os deveres nos programas que eles têm. No dia seguinte, às 7h45, as crianças já estavam online com o professor dando aula. E eles ficam ocupados mesmo, três aulas por dia, que seria o horário que eles estariam na escola”.


Mas, mesmo entre as famílias com renda mais alta, não há consenso. A advogada e professora universitária Susana Spencer, que tem dois filhos matriculados em outra escola particular da capital federal, conta que o colégio está mantendo atividades online, mas ainda com algumas dificuldades.  Para que eles não fiquem sem rotina, ela elaborou um quadro de atividades com tempo de estudos, lazer e tarefas domésticas. Mesmo assim, ela prefere não os preocupar demais com o futuro escolar, já que ainda há muita incerteza sobre o que vai acontecer em meio a pandemia.


“Na escola dos meus filhos e nas instituições de ensino que eu tenho observado, as diretrizes passadas pelas coordenações acabam se atropelando ou sendo contraditórias, pois não temos perspectiva de quanto tempo vamos ficar nesse confinamento dentro de casa. Então tem hora que fala o seguinte: vamos passar atividades acadêmicas para os alunos realizarem em casa. Depois fala que vai ter videoaula. Como não temos diretriz para essa situação de calamidade, está havendo desencontro”.


No Brasil, há suspensão de aulas em todos os estados. Em todo o mundo, de acordo com a Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, 156 países fecharam escolas e universidades. 1,4 bilhão de crianças e jovens, o que corresponde a 82,5% de todos os estudantes no mundo, foram afetados.