Jogadoras enfrentam família e depressão pelo futebol no estado mais violento contra a mulher
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Jogadoras enfrentam família e depressão pelo futebol no estado mais violento contra a mulher

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Hostilidade, preconceito e agressões fazem parte do cotidiano das jogadoras em Roraima. A estudante Sara Kethelem enfrentou a discriminação dentro de casa por jogar bola. A bombeira Eva Guivara abriu mão do casamento por amor ao esporte. Já Dona Lucimar Pereira desafia há três gerações a intolerância contra as boleiras.

As três são testemunhas do preconceito no futebol feminino no estado mais violento do Brasil contra a mulher, segundo dados do Monitor da Violência - uma parceria do G1 com a Universidade de São Paulo e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foram 28 vítimas no ano passado, contra 15 em 2017 – um aumento de 87% nos casos. O número de mortes de mulheres no estado é mais que o dobro da média nacional: 10 a cada 100 mil mulheres. No Brasil, a taxa é de 4 por 100 mil.

- A ideia aqui ainda é muito machista, meio "Código de Hamurabi" (a mais antiga lei escrita do mundo, criada onde hoje é o Iraque): olho por olho, dente por dente. Me traiu, então vou matar… Ainda tem muito esse pensamento aqui na região - disse a delegada Carol Camelo.

Roraima tem apenas uma delegacia da mulher. Dados da Polícia Civil mostram que os registros de violência aumentaram este ano. Até o mês passado, 1.450 boletins de ocorrência foram feitos por crimes contra a mulher na delegacia especializada, superando os 1.317 casos registrados em todo ano de 2018.

Na terça, dia 10 de setembro, quando a reportagem do Esporte Espetacular acompanhava a rotina da delegacia, uma mulher chegou desesperada dirigindo um carro com todos os vidros quebrados. Ela se livrou do ataque do ex-namorado, que não se conformava com o fim do relacionamento.

A rotina de violência contra a mulher se repete no futebol. Não apenas com agressões físicas. A bombeira Eva Guevara, de 32 anos, terminou até o casamento por causa da sua paixão pelo futebol. Há cerca de dez anos, ela morava numa fazenda no interior do estado e foi convidada para jogar na capital. O marido não escondeu o descontentamento e as discussões se tornaram constantes.

- Quando minhas amigas me ligavam para jogar futebol, ele atendia e desligava o telefone na cara das meninas. - conta a volante do São Raimundo, atual tetracampeão de Roraima. - Muitas vezes, eu ficava em casa triste, chorava. Às vezes, eu ia jogar e ele ficava de cara feia, não fala comigo dois dias. Decidi acabar com o casamento - lembra.

Eva não se arrepende da escolha, apesar do cenário desalentador do mercado da bola em Roraima. O futebol feminino é amador lá. Nenhuma atleta recebe salário. Mesmo assim, ela diz que é mais feliz. Casada novamente, a volante conta com o apoio do novo marido.

- Ele já foi avisado para não me fazer escolher entre a bola e o casamento. Já disse que ele vai ficar sozinho. Sem dúvida, vou pra bola - conta a jogadora experiente, dando uma risada.

Companheira de clube de Eva, a lateral-direita Sara Kethelem, de 20 anos, também sofreu preconceito dentro de casa. Ela enfrentou a mãe, que a proibia de jogar.

- Ela era machista. Falava que futebol era para macho, para homem, que tinha que procurar outra coisa. Apanhei de corda no quintal porque estava jogando com menino - disse a lateral, sentada no sofá ao lado da mãe. Elas moram numa casa modesta na periferia violenta de Boa Vista. As duas dividem o espaço apertado com mais dois irmãos de Sara.

Francisca Alves se arrepende por ter se desentendido tanto com a filha. Ela culpa “a ignorância e a falta de conhecimento” pelas constantes brigas na adolescência da jogadora.

- Como a Sara é filha única, a minha visão era que ela fosse a bonequinha da casa, perfeitinha. Por isso, eu pegava no pé. Ela era sempre a jogadora. Eu queria que ela fosse a menininha normal. Tem que ter cabelo grande, saia. Essa era a minha guerra com ela. Foi muito doloroso - reconhece Francisca, acrescentando que a filha a fez mudar “a forma de ver o mundo”.

Por causa das constantes brigas familiares, Sara passou a sofrer de depressão. Numa das crises, ela chegou a cortar os pulsos.

- Achava que me machucar me aliviaria - diz a jogadora.

A dor de Sara virou, também, a dor de dona Francisca. Ela passou a buscar conhecimento e montou um grupo para ajudar mães e filhos vítimas de maus tratos na cidade.

- Eu quero ver hoje a minha filha fazendo o que ela gosta. Os nossos sonhos já foram. Agora é o sonho dela. Ela quer ser jogadora de futebol, alcançar os objetivos. Eu só tenho que amar, lutar e torcer junto com ela - afirma Francisca.

Longe de casa, a realidade enfrentada pelas atletas também é violenta. Elas são ofendidas nos estádios. Algumas relataram agressões físicas.

- Nosso time ganhou uma vez e alguns homens não gostaram. Eles partiram para cima da gente, nos agrediram e quebraram o carro. Infelizmente, isso acontece na beira do campo - lembra Amanda Sobral, capitã do São Raimundo. A briga aconteceu numa campeonato escolar em Boa Vista.

Responsável por organizar o futebol no estado, a federação local pouco faz pelas mulheres. Apenas três times disputaram a última edição do Campeonato Estadual. O investimento da federação é quase zero. Segundo o boletim financeiro da entidade, a competição custou cerca de R$ 20 mil, pouco mais de R$ 1 % dos gastos da federação em 2018.

O torneio mais popular no estado é organizado pela prefeitura da capital. O campeonato distribui R$ 63 mil aos participantes na edição deste ano. A primeira rodada foi disputada no dia 8 com portões abertos para um público pequeno _menos de 200 torcedores. Na ocasião, o São Raimundo goleou o Milan, por 10 a 0.

Presidente da Federação Roraimense de Futebol, o contador aposentado Zeca Xaud, de 75 anos, não foi prestigiar as jogadoras. Há quase 45 anos no cargo, ele é o mais antigo cartola no poder em uma federação no país.

Apesar do longo período, o futebol local não decolou. Na entrevista, o dirigente nem sabia que o Estadual foi disputado no ano passado.

O cartola segue no sentido oposto ao do presidente da Fifa, Gianni Infantino, quando o assunto é futebol feminino. O suíço quer aumentar a participação das mulheres no futebol. Xaud acha o projeto impossível de ser adotado no Brasil.

- Idiotice é o cara fazer normas sem ter conhecimento próprio das nossas regiões - diz o cartola.

O balanço financeiro da federação mostra que entidade gastou cerca de R$ 1,7 milhão em 2018. A CBF é a maior financiadora da entidade administrada por Xaud _R$ 917 mil. Para se manter no poder, o dirigente adota o assistencialismo como forma de administrar o futebol local. Cartolas ouvidos pelo Esporte Espetacular admitiram que Xaud costuma pagar a conta dos seus clubes em troca de apoio político. No início do ano, ele foi reeleito para mais quatro anos no cargo.

No ranking das 27 federações elaborado pela própria CBF, a entidade presidida por Xaud ocupa a última colocação.

Apesar da realidade desoladora do futebol local, as mulheres continuam driblando a falta de apoio e investimento em Roraima.

Em Alto Alegre, cidade com pouco mais de 16 mil habitantes e distante 93 km da capital, uma família é símbolo da luta contra o preconceito no futebol feminino.

Apaixonada pelo esporte, Dona Lucimar Pereira, de 66 anos, criou na cidade um time de futsal com as filhas e netas. Peladeira até os 45 anos, como gosta de dizer, Dona Lucimar é técnica e torcedora do Almirante, nome dado ao time em homenagem ao Vasco.

- Dou força agora para as minhas netas e filhas. Acho bonita mulher jogar - conta a dona de casa, que enfrentou preconceito por jogar futebol no início dos anos 80 quando chegou em Roraima vindo do Maranhão.

Quando minha filha começou a jogar, falavam que ela queria ser machuda. Tinha vezes que ela chegava chorando em casa - lembra Dona Lucimar.

Apesar de quase 40 anos de avó nos campos e arquibancadas, a terceira geração da família Pereira ainda convive com a intolerância.

Destaque do São Raimundo, Nayandra Perreira, de apenas 15 anos, diz que foi rejeitada por professores e amigos da escola por jogar futebol. Na rodada de abertura do torneio bancado pela Prefeitura de Boa Vista, ela foi o destaque ao marcar dois dos 10 gols do time da capital.

- Quero que ela "exploda" no Brasil. O preconceito que vier quero estar junto. Lugar de mulher é onde ela quiser - diz Beatriz Pereira, mãe de Nayandra. Professora de matemática numa comunidade indígena no município, ela também joga com a filha no Almirante.

- Na nossa família é assim. Não damos bola para o preconceito. Deixa a gente jogar - completa Dona Lucimar após mais uma vitória do time no torneio de futsal em Alto Alegre.