Representantes do audiovisual do país discutem ameaça de fechamento da Ancine em SP
São Paulo

Representantes do audiovisual do país discutem ameaça de fechamento da Ancine em SP

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Representantes* do setor audiovisual do país se reuniram nesta quarta-feira (14) em São Paulo para discutir uma estratégia de diálogo com o governo federal para evitar o possível fechamento da Agência Nacional do Cinema (Ancine). O encontro foi promovido pela Spcine, empresa vinculada à Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo.

Os profissionais ficaram alarmados com a declaração do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de que extinguiria ou privatizaria a Ancine caso as produções não tivessem um “filtro”. Bolsanaro afirmou que não admitirá o uso de dinheiro público para filmes como “Bruna Surfistinha”, que considera “pornográfico”.

Além disso, o governo federal também anunciou que estuda transferir o Fundo Setorial do Audiovisual -- que teve orçamento de R$ 724 milhões em 2018 -- da Ancine para o Ministério da Cidadania, que engloba a extinta pasta da Cultura. Na prática, a mudança significa que a agência deixaria de ser responsável pelo incentivo financeiro direto do mercado, o que é uma de suas atribuições além da regulação e fiscalização.

Segundo a cineasta Laís Bodanzky, presidente da Spcine, o objetivo do evento desta segunda é unir o setor para chamar atenção do governo sobre o impacto econômico e cultural que as mudanças representariam.

“Muitas vezes se pensa que o setor do audiovisual é só fazer filmes, mas não é só. Você tem televisão, séries, animação, todo o parque de exibição, os distribuidores, também o mundo dos games, que é um setor bem específico. Tudo isso está no guarda-chuva da Ancine e gera emprego e renda”, disse ao G1.

Bodanzky afirma que foi solicitada uma reunião em Brasília com ministro da Cidadania, Osmar Terra, para apresentar números da Ancine e falar sobre as pautas nacionais discutidas neste encontro em São Paulo.

“Como foi tudo tão rápido e violento, colocado contra a parede com a possibilidade de o setor não existir mais, de a Ancine desaparecer, o setor começou a se manifestar de maneira individual. Isso foi muito importante e continua sendo, mas faltava um encontro para alinhar essas ações e unir o discurso para mostrar nossa força e a abrangência de um país inteiro”, afirma a cineasta.

Diálogo com o governo

Durante o evento nesta segunda-feira, o produtor Rodrigo Teixeira afirmou que esteve em Brasília nesta semana, junto com outros quatro produtores nacionais, para tentar sensibilizar representantes do ministério e da Secretaria de Comunicação sobre a importância econômica das produções nacionais.

“A gente precisa se apoiar para que a Ancine continue existindo. Temos que dialogar e apresentar essa pauta econômica. O Itamaraty nem sabia que fomos premiados em Cannes”, afirmou.

Premiado recentemente no festival estrangeiro, Teixeira já havia dito ao programa "Conversa com Bial" que os filmes “Bacurau” e “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” não receberam congratulações do governo.

“Censura”

Após a repercussão das declarações de Bolsonaro sobre “filtro” de conteúdo, o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, afirmou que não se tratava de “censura”. Entretanto, disse também que o governo não patrocinará filmes que "atentem contra os valores éticos e morais" da sociedade.

Para Teixeira, os artistas devem se unir para que não haja restrição. “É nosso papel combater a restrição ou uma tentativa de censura. A batalha é continuar produzindo o conteúdo que a gente produz”, disse.

O secretário municipal de Cultura, Alê Youssef, afirma que a cidade de São Paulo cumpre um papel estratégico para a discussão atual da produção cultural nacional.

“A Secretaria da Cultura e a Prefeitura de São Paulo mantêm essa posição de que cultura não pode ter filtro. Não pode passar por qualquer tipo de processo de censura. Isso precisa ser muito ressaltado porque é conquista da democracia brasileira, não é desse ou daquele setor”, diz.

O prefeito Bruno Covas (PSDB) tem se posicionado contra Jair Bolsonaro em diversas declarações do presidente.

*Entidades que participaram do encontro: ABC, ABCA, ABELE, ABRA, ABRACCINE, ABRACI RJ, ABRAGAMES, ABRANIMA, AMC, ANCINE, ANDAI, APAB, APACI, APAN, APBA-CO, API, APROCINE – BRASILIA, BRAVI, CBC, CINEME-SE, CONNE NORTE, DBCA, ERA TRANSMIDIA, FORCINE, FÓRUM DOS FESTIVAIS, FÓRUM SETORIAL DE ALAGOAS, FUNCEB, INSTITUTO OLGA RABINOVICH, MATAPI, MERCADO AUDIOVISUAL NORTE, MULHERES DO ÁUDIO VISUAL BRASIL, MUSIMAGEM BRASIL, SANTACINE, SECRETARIA DE CULTURA DE MACEIÓ, SECRETARIA DE CULTURA DO ESTADO DA BAHIA, SIAESP, SIAPAR – PARANÁ, SICAV, SINDCINE, SOMBUMBO