Reconstruções. Qual foi a sua hoje?
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Reconstruções. Qual foi a sua hoje?

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Liguei duas vezes seguidas. Alessandra não atendeu. Sem jeito, mandei um áudio. Ela me retorna com outro, tão carinhosa que me desconcerta. E eu nem imaginava a situação: “Desculpe Aline, querida, estou começando a sessão de quimioterapia e a veia estava dando trabalho, aqui. Agora posso falar, será um prazer”.

Alessandra descobriu um câncer de mama e engravidou meses depois. Felicidade mascarada de choque, pintada pelo medo. Ou fazia tratamento completo ou seguia com a gestação. Escolheu a vida, do filho e dela, que só fazia sentido com ele.

Voltando ao telefonema. Do útero, Lorenzo alimentava a mãe de força. Completou três meses em setembro, e Alessandra começou a enfrentar a segunda e mais agressiva etapa da medicação. Está bem. Reconstruindo. Não pode amamentar com a mama que foi preservada, mas o mais difícil é não usar peruca, como pedem os filhos mais velhos.

“O câncer na minha vida é um momento em que eu posso me reconhecer, descobrir uma força que não conhecia. De viver a união de um jeito inédito. Resiliência é a palavra. Aceitar a transformação".

Alessandra reconstrói a ideia que tinha sobre si mesma aos 38 anos.

A mortalidade do câncer de mama no Brasil está baixa em relação a vários países, inclusive aqueles de “primeiro mundo”. Mas a nossa desigualdade de “segundo mundo” condena mulheres pobres e de baixa escolaridade a diagnósticos tardios. Muitas não conseguem reconstruir. A fila para mamografia desconstrói.

Superar o câncer é reconstruir. A mama, em muitos casos. Mas não apenas. Porque nunca é apenas isso. Nada na vida é apenas. Em nenhuma vida.

Havia tanto, tanta reconstrução por trás dos números divulgados pelo INCA nesta semana, em mais um outubro rosa.

Reconstruir constantemente o que pensamos saber da doença. Reconstruir nossa atenção a partir do outro e conhecendo trabalhos incríveis que tentam reverter alguns efeitos dos abismos sociais. Isso nos reconstrói também.

E o exemplo vem do Estado com o maior índice de câncer de mama, o Rio de Janeiro. O Serviço de Plantão do Psicológico da Santa Casa oferece atendimento individual, em família e em grupo de pacientes oncológicos. Uma ilha de excelência e respeito ao ser humano. Não existe trabalho igual. Quem não pode pagar também é atendido.

"Quando você adoece, leva um susto, vê a morte de perto. Passei a ter vontade de lutar e quando supera, é como se tudo ficasse diferente, você passa a ser uma pessoa mais feliz. É como se toda tristeza fosse jogada fora, junto com a mama. Você supera a doença e a tristeza que tinha dentro de você. E com a reconstrução da mama doente, a vida se reconstrói".

Katia reconstruiu a carreira e a relação com a tristeza depois de descobrir um tumor grave há quatro anos. Ainda no tratamento, resolveu ser voluntária neste plantão. Era formada em psicologia há quase três décadas e nunca tinha exercido a profissão. Reconstrói os próprios caminhos aos 65 anos.

O que a motivou? As mulheres que não tem acesso integral ao sistema de tratamento.

Aprendi com essas mulheres: o sentimento que fica deve ser o de força, em qualquer tipo de reconstrução. Lembram-se daquele ditado: o que não mata fortalece? Nos leva pra vida, pra frente, disse Katia. Pra um futuro existente, independente da idade.

O câncer não espera. A vida também não. O que você reconstruiu hoje?

Aproveitando!

O Ministério da Saúde recomenda que mulheres com 50 a 69 anos realizem a mamografia de rotina, uma vez a cada dois anos.

Segundo o Inca, os principais sinais e sintomas da doença são caroço (nódulo), geralmente endurecido, fixo e indolor; pele da mama avermelhada ou parecida com casca de laranja, alterações no bico do peito; saída espontânea de líquido de um dos mamilos; e pequenos nódulos no pescoço ou na área das axilas.

Ei, homens:

O câncer de mama em homens representa 1% dos casos, mas eles costumam ser mais agressivos.