Quanto tempo você tem agora?
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O encantamento. O horror. Quase ao mesmo tempo. O tempo sente? Porque a gente, sim, sente emoções tão extremas e profundas ao mesmo tempo. O tempo permite, mas provoca confusões. Às vezes parece que já não sentimos tanto. Passa.

Um minuto. 93 anos.

A polícia ainda não descobriu o que levou um garoto de 12 anos a matar a colega de escola, encontrada pendurada numa árvore de um parque de São Paulo. No compasso de um outro tempo, de uma dor inimaginável, Rosevânia, a mãe de Raíssa, disse que se virou por apenas um minuto para comprar pipoca e pediu que a filha de 9 anos ficasse por perto. “Se ela saísse, não saberia voltar", disse numa entrevista. Quando olhou, a filha não estava mais lá. E não voltou. Raíssa tinha autismo e precisava de atenção o tempo todo. Por quanto tempo a mãe sentirá essa dor inimaginável? Quanto tempo dura a nossa compaixão?

Primeiro, noticiamos e sentimos o horror. As lágrimas pegaram o embalo das palavras com um desejo imenso de transmitir a maior verdade possível do que sentíamos, sabendo que não haveria tempo suficiente. Havia outras notícias, e uma delas encheria o mesmo estúdio de alegria e esperança. Pouco tempo depois.

1º de outubro é o dia do idoso. Idoso. Basta ter 60 anos. 60. Anos. O que você fez no último ano? O que o tempo te ensinou até aqui?

A repórter Bárbara Carvalho, da GloboNews, fez essa pergunta a um grupo de mulheres que teimam em querer viver e aproveitar o tempo com a sabedoria que só o tempo traz. Dançam, nadam, correm a favor do tempo e compartilham o que aprenderam.

“Eu odeio perder tempo. Eu acho o tempo o bem mais precioso que nós tempos porque ele não é recuperável, não volta atrás. Ganhar tempo, pra mim, é ganhar a vida.”

“Curto muito a vida, respeito o direito dos outros. Gosto muito de cumprimentar, de abraçar, sorrir. Tenho 93 anos e me sinto com 60”, disse a Nilza.

Quis ser a Nilza por um segundo. Estar apaixonada pelo tempo, brincar com ele. Será necessário muito tempo pra aprender?

Perguntei à Bárbara, nossa sensível repórter, o que ficou daquela experiência: "uma aula de vida, sem pieguismos, com lições sobre se reinventar, não permitir rótulos, sair da caixa quantas vezes for preciso”.

Nilza também é saudade. A Nilza, mãe do filósofo Clóvis de Barros Filho, com quem conversei sobre o tempo. Ela chega pela memória, no tempo da alma que também habita no passado. Temos o tempo da alma e do mundo, me disse.

“No passado, a alma se encontra ocupada em reconstruir o já vivido. Ativada em memória. Embora tenha o passado por objeto, a memória é produção no estrito presente. Onde toda a vida se encontra. Não há passado fora dele."

(A íntegra do ensaio de Clóvis, "Os tempos da alma e o tempo do mundo", pode ser lida aqui)

Há muitos tempos da alma. E um tempo no mundo. Resta viver o que há, me disse Clóvis, que hoje se vê num tempo próprio, numa cabana onde há fragmentos da eternidade, onde as agendas viram pó e onde há uma reconciliação com o mundo e na paz inesperada entre o medo e a cobiça.

Porque queremos, desejamos. Tempo. E temos medo. De não ter, de não ser, de deixar passar ou de não passar. Porque não se volta atrás, apenas na alma, não no tempo do mundo.

Mas temos o poder se sentir tanto, lembram? Esse é nosso trunfo. Sentir é despertar. Perdoar-se, quando parecia haver tempo. Aproveita o dia de hoje, esse segundo. Temos tempo. Tempo de cura, dor, transformação e ensinamento. A melhor cadência a gente aprende só com o tempo; só tente amar em cada nova batida.