Por que a guerra no Afeganistão se tornou a mais longa já travada pelos EUA
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Por que a guerra no Afeganistão se tornou a mais longa já travada pelos EUA

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, suspendeu abruptamente negociações com o grupo Talibã quando os dois lados pareciam perto de chegar a um acordo de paz.

O que motivou essa decisão? E por que os EUA estão há tanto tempo em guerra no Afeganistão?

Os ataques do 11 de Setembro

Em 11 de setembro de 2001, ataques terroristas nos Estados Unidos mataram quase 3 mil pessoas. Osama bin Laden, o chefe do grupo extremista al-Qaeda, foi rapidamente identificado como responsável pelos atentados.

O Talibã, grupo islâmico radical que governava o Afeganistão na época, decidiu proteger Bin Laden e se recusou a entregá-lo ao governo americano. Então, um mês depois dos atentados de 11 de setembro, os Estados Unidos lançaram ataques aéreos contra o país.

Outras nações entraram na guerra em apoio aos EUA, e o Talibã foi rapidamente removido do poder. Mas o grupo não desapareceu e sua influência voltou a crescer nos últimos anos.

Os EUA têm tido dificuldades para impedir que o atual governo afegão entre em colapso e para acabar com os violentos ataques a bombas promovidos pelo Talibã.

Osama bin Laden

"Nós não desejávamos essa missão, mas vamos cumpri-la", disse o então presidente George W. Bush quando anunciou os primeiros ataques aéreos contra o Afeganistão, em 7 de outubro de 2001.

A ação militar era uma resposta aos ataques de 11 de setembro que mataram 2.977 pessoas em Nova York, Washington e na Pensilvânia. A missão, disse Bush, era "impedir o uso do Afeganistão como base de operações terroristas e atacar a capacidade militar do regime do Talibã."

Os primeiros alvos foram áreas militares pertencentes ao braço mais radical do Talibã. Campos de treinamento da Al-Qaeda, rede extremista comandada por Bin Laden, também foram atingidos.

Mas, 18 anos depois do início da guerra, é difícil dizer que a missão foi cumprida.

O Talibã continua a exercer pressões no país por meio de ataques e atentados, e poderá voltar a ter um papel oficial na estrutura de governo afegã se as negociações de paz forem bem-sucedidas.

Ascensão, queda e ressurgimento do Talibã

O Talebã conquistou o controle da capital afegã, Cabul, em 1996, e passou a governar o país dois anos depois. O grupo segue uma interpretação radical do islã e defende punições severas e execuções públicas a quem descumpre as orientações religiosas.

Dois meses meses depois dos ataques lançados pelos EUA em resposta aos atentatos de 11 de setembro, o governo talibã entrou em colapso - militantes e dirigentes do grupo se deslocaram para o Paquistão.

Um novo governo apoiado pelos EUA assumiu em 2004, mas o Talibã ainda mantinha grande apoio em áreas próximas à fronteira do Paquistão. O grupo passou a angariar milhões de dólares por ano com tráfico de drogas, mineração e impostos cobrados em territórios ainda dominados.

Nos últimos anos, o Talibã passou a lançar mais ataques suicidas. E as forças internacionais que atuam no Afeganistão enfrentam dificuldades para conter esses atentados.

Em 2014, ao final do ano mais sangrento no país desde 2001, forças da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), temendo ter de ficar no Afeganistão indefinidamente, encerraram sua missão de combate, repassando ao Exército afegão a responsabilidade de combater o Talibã.

Mas isso deu fôlego ao grupo, que conseguiu ampliar os territórios dominados e passou a explodir mais bombas contra membros do governo e alvos civis. Conforme levantamento da BBC, o Talibã segue ativo em 70% do território afegão.

Como o Talibã surgiu?

O Afeganistão já era um país de conflitos armados constantes havia pelo menos 20 anos quando os Estados Unidos invadiram o território.

Em 1979, um ano após um golpe, o Exército soviético invadiu o Afeganistão para dar apoio ao governo comunista que havia se instalado no país.

Os soviéticos estavam lutando contra um movimento de resistência ao novo regime conhecido como mujahideen, que era apoiado por Estados Unidos, Paquistão, China e Arábia Saudita, entre outros.

Em 1989, tropas soviéticas se retiraram do país, mas a guerra civil continuou. No caos que se seguiu, o Talibã (que significa "estudantes" na língua pashto) nasceu.

O grupo assumiu grande relevância nas áreas de fronteira do norte - com o Paquistão - e no sudoeste do Afeganistão em 1994. Os talibãs prometiam lutar contra a corrupção e melhorar a segurança.

Na época, muitos afegãos estavam cansados dos excessos e disputas internas dos mujahideen durante a guerra civil.

Acredita-se que os talibãs surgiram primeiro em escolas religiosas - a maioria fundada pela Arábia Saudita, que prega um interpretação rigorosa do islã.

Os talibãs passaram a promover a sua própria versão da Sharia, a lei islâmica, e introduziram punições brutais. Os homens eram obrigados a deixar a barba crescer e as mulheres, a usar burca, que cobre o corpo da cabeça aos pés.

O Talibã baniu televisão, música, cinema e era contra dar educação para meninas.

Como esse grupo deu abrigo a militantes da Al-Qaeda, ele se tornou alvo imediato de ataques dos EUA e de forças internacionais após o 11 de Setembro.

Por que a guerra tem durado tanto tempo?

Há várias razões para isso. Mas elas incluem a resistência obstinada dos talibãs, as limitações técnicas e financeiras das forças afegãs e de sua estrutura de governança, e a relutância dos EUA e de países europeus em manter tropas por mais tempo no Afeganistão.

Em alguns momentos dos últimos 18 anos, o Talibã se viu acuado. No final de 2009, o então presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou um reforço da presença americana no Afeganistão e o número de militares lá chegou a 100.000.

Esse reforço ajudou a expulsar o Talibã de áreas do sul do país, mas era uma operação temporária. Depois da diminuição da presença de tropas, o Talibã conseguiu se reorganizar.

Quando as tropas internacionais começaram a sair do país, as forças afegãs deixadas para liderar a luta foram facilmente combatidas. Para piorar, o governo afegão, que é repleto de divisões tribais, vive constantes atritos internos.

O repórter Dawood Azami, do serviço mundial da BBC, lista algumas das razões principais para a guerra estar ocorrendo até agora. Elas incluem falta de clareza política desde que a invasão se iniciou, questionamentos sobre a eficácia da estratégia dos EUA nos últimos 18 anos e o aumento da violência por militantes do Estado Islâmico no Afeganistão, que estiveram por trás de alguns dos ataques mais sangrentos dos últimos anos.

Também há o papel desempenhado pelo país vizinho, o Paquistão.

Não há dúvidas de que o Talibã tem suas raízes no Paquistão e de que conseguiram se reorganizar lá durante a invasão dos EUA. Mas o Paquistão nega que esteja protegendo ou ajudando o grupo, embora os EUA venham cobrando esforços maiores na luta contra militantes talibãs

Como o Talibã conseguiu se manter forte?

Estima-se que o grupo arrecade até US$ 1,5 bilhão por ano. Parte desse dinheiro vem do tráfico de drogas - o Afeganistão é o maior produtor de ópio do mundo e o Talibã domina a maioria das áreas onde estão as plantações de papoula usadas para produção de heroína.

Mas o grupo também angaria dinheiro cobrando pedágios de quem viaja pelos territórios dominados e de empresas que operam nesses locais, como de telecomunicação, energia e minério.

Países como Paquistão e Irã negam que estejam financiando o grupo, mas acredita-se que, no mínimo, cidadãos dessas regiões estejam contribuindo financeiramente com o Talibã.

Qual é o custo dessa guerra?

É muito alto. É difícil dizer quantos militares afegãos morreram - os números não são mais divulgados. Mas, em janeiro de 2019, o presidente afegão Ashraf Ghani disse que 45 mil membros das forças de segurança do país morreram desde 2014.

Quase 3,5 mil integrantes das forças da coalizão internacional morreram desde a invasão de 2001 - mais de 2.300 deles eram americanos.

O número de civis mortos é ainda mais difícil de quantificar. Um relatório da ONU de fevereiro de 2019 aponta que 32 mil civis morreram desde o início da guerra. O Instituto Watson, da Universidade Brown, nos EUA, diz que 42 mil membros de forças rivais aos EUA e ao Exército afegão morreram.

O mesmo instituto diz que os conflitos no Iraque, Síria, Afeganistão e Paquistão custaram aos EUA US$ 5,9 trilhões desde 2001. Os EUA ainda estão conduzindo ataques aéreos contra o Talibã, promovidos por Donald Trump, terceiro presidente a governar os EUA desde que os conflitos se iniciaram.

Mas ele pretende reduzir as tropas americanas na região antes da próxima eleição presidencial, em novembro de 2020.

O Talibã agora controla muito mais territórios do que quando as tropas internacionais começaram a deixar o Afeganistão, em 2014.

Muitos em Washington temem que uma retirada total de tropas americanas gere um vácuo que pode ser ocupado por grupos radicais que buscam atacar o Ocidente.

Enquanto isso, a população afegã continua a arcar com as maiores consequências desse prolongado e sangrento conflito.