O bom gosto em todos os gostos
João Máximo

O bom gosto em todos os gostos

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Quem gosta de música, qualquer música, deve dedicar parte de seu tempo à leitura de “Do rock ao clássico”, livro em que Athur Dapieve reúne cem crônicas afetivas dedicadas à arte que mais aproxima o homem de Deus.

O autor não diz isso com todas as letras, mas certamente é daqueles que acreditam que só um ser ungido, protegido por quem quer que esteja lá em cima, seja capaz de transformar ruído, rumor, barulho... em beleza. Ou melhor, em música.

O que explica sua singular capacidade de ser rigorosamente fiel ao prometido no título de seu novo livro, do rock ao clássico, provando que todos os sons, uma vez combinados e harmonizados pelo talento do homem, têm algo de sagrado.

Dapieve escreve sobre música com paixão de fã e rigor de estudioso. Não se deixa vencer pela arrogância, parceira constante de quem pensa saber de tudo, nem economiza elogios a quem admira, coisa que os críticos, por pudor, evitam. Só por isso não teme possíveis invejas e pruridos de quem o vê eleger Aldir Blanc como nosso maior letrista vivo.

É mesmo uma viagem interessante, pelos diferentes caminhos da música, a que Dapieve empreende em suas cem crônicas. O ponto de partida, porém, é o rock.

Se é um disco de Pink Floyd que o leva a compreender que, coisa séria, o rock é o som jovem do seu tempo, logo estará aprendendo, com David Bowie e os Beatles, que não se trata apenas de música, mas de “poesia, artes visuais, moda, consumo, comportamento, pronunciamento político, intervenção social em seu tempo”. Mais adiante, percebe que o rock brasileiro é música certa na hora certa. E cria para ele um nome: BRock

É coerência – e não contradição – que Dapieve seja hoje um devoto da música clássica como foi um dia do rock. Como ele mesmo explicou, em crônica afetiva que não está no livro, foi decolando do rock que pousou nos clássicos. Daí não haver heresia em prezar, ao mesmo tempo, Kurt Cobain e Mozart, Jimi Hendrix e Handel, Legião Urbana e Bruckner, Renato Russo e Beethoven, Raul Seixas e Debussy. Qual o problema?

Blues, soul, funk, rock progressivo, hip hop, tudo pode conviver com concertos e sinfonias da chamada “grande música”. O problema é saber ouvir. Dapieve não gosta de Carnaval, mas ama a Portela e pode curtir um samba-enredo do Salgueiro. Reconhece em Paulinho da Viola, Candeia, Zeca Pagodinho, belas vozes do samba. E em Cartola e Nélson Cavaquinho, os mestres. Foi apaixonado por Clara Nunes e demorou um pouco a entender Bethania. Traz de volta o gênio de Ernesto Nazareth e saúda Mílton e os mineiros.

Em síntese, é raro dos nossos escribas musicais a se render à nossa e a outras músicas populares com a mesma afetividade com que reverencia os nomes do rock e do jazz. Também nisso é mente aberta, às vezes surpreendente: tanto pode curtir o piano de Bill Evans e o sax de Paul Desmond como ver (ou ouvir) em Lady Gaga e Tony Bennett dois cantores de jazz que eles nunca foram.

Há quem ache que música foi feita somente para se ouvir e não para que se escreva a respeito. “Do rock ao clássico” o desmente. Primeiro, por Arthur Dapieve realmente se jogar de coração sobre as coisas que ouve; depois, pela primor do texto. A música, qualquer música, bem o merece.