Jéssica Ellen comenta show com Elza Soares no Rock in Rio: 'Não vou acreditar até chegar no palco'
Rock in Rio 2019

Jéssica Ellen comenta show com Elza Soares no Rock in Rio: 'Não vou acreditar até chegar no palco'

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Elza Soares não era uma das artistas que Jéssica Ellen lembra de ouvir com sua mãe na infância, mas a atriz diz que, se tiver algum filho um dia, vai colocar o disco “A Mulher do Fim do Mundo” para criança ouvir desde pequena.

"É um soco no estômago de consciência. É um disco fundamental", afirma ao G1.

Com rosto conhecido em novelas e séries, a carioca também é cantora e vai dividir o palco com veterana no Rock in Rio no domingo (29), no Palco Sunset.

Ela é uma das convidadas ao lado de Kell Smith e As Baianas e a Cozinha Mineira, mas diz, que “conhece pouco” o trabalho das artistas.

Apesar de Jéssica gostar do disco de 2017, o foco do show do festival vai ser "Planeta Fome", disco de Elza lançado neste mês. A apresentação será a estreia da turnê do 34º álbum da cantora de 89 anos.

Assim como no anterior, a crítica sobre o tempo presente continua entre os temas do disco. "Ela faz críticas ao genocídio do corpo preto, ao que acontece diariamente nas favelas.

“A vida da Elza é muito intensa, ela é uma grande guerreira e poder estar cantando com ela é quase como ‘Meu Deus, estou aqui mesmo?”, afirma.

“Eu não vou acreditar ainda até chegar no palco", conta Jéssica, que se mostrou uma artista pé no chão e determinada ao longo de toda a conversa.

Mas não era atriz?

Jéssica começou a carreira de atriz em Malhação, como a Rita, na temporada de 2012, fez outros papéis na televisão, mas nos últimos dois anos tem se dedicado também à música.

Ela esteve no peça “Meu Destino é Ser Star” com músicas de Lulu Santos e direção musical de Zé Ricardo, mesmo curador do palco Sunset. A peça estreou no começo deste ano no Rio e já passou por São Paulo.

Seu primeiro disco, "Sankofa", foi lançado em maio de 2018 e é um registro sobre a ancestralidade e uma homenagem à sua família. “É mais compartilhar um momento feliz do que querer compartilhar qualquer bandeira”, explica.

Ela também explora bastante a sua relação com a umbanda e candomblé no disco. A música começou como uma brincadeira quando reproduzia o que a mãe ouvia, quando criança. Entre as artistas, ela cita Alcione, Whitney Houston e Elis Regina.

Jéssica lembra que foi a aprovação dos outros que a fez continuar cantando. "Só que eu ficava muito rouca. Comecei a procurar aula porque tinha a sensação de que não sabia o que estava fazendo".

Das 14 músicas do disco, quatro são delas. E ela diz que o processo de composição foi natural e que já pensa em um segundo disco.

Senso de responsabilidade

Depois da estreia em 2012, a atriz atuou nas novelas “Geração Brasil” e “Totalmente Demais” e nas séries “Justiça”, "Assédio" e “Filhos da Pátria”.

E Jéssica parece não se deslumbrar com a fama. “Tem gente que fala assim ‘Você está numa ascensão muito bonita’, mas eu não tenho esse olhar. Cada trabalho novo é tão diferente do outro que eu fico insegura igual”.

Entre os assuntos mais recorrentes nas redes sociais da atriz estão a religião e o empoderamento negro. Jéssica discute isso com desenhos e fotos de Beyoncé e da própria Elza Soares.

Como representante da nova geração de atrizes negras, ela sente outro tipo de responsabilidade com seu trabalho:

"Diferentemente de outros artistas que não param para pensar sobre isso ou que não tem a responsabilidade de representar pessoas, eu me preocupo muito com o que estou comunicando através dos personagens, como eles são abordados em cada trabalho".

“Eu sou uma mulher preta porque não tem como não ser, porque o espelho me diz, porque a sociedade me diz, então não consigo nem conceber a ideia de não falar sobre isso."

Projetos sociais desde pequena

Nascida na Rocinha, ela começou a dançar aos 10 anos. Três anos depois começou o teatro e foi neste momento que sentiu que queria ser artista.

O apoio da família foi importante para que ela conseguisse estudar os três períodos, um na escola e os outros dois em projetos sociais.

“Não era um esforço ter uma grade tão preenchida. Eu achava bom, porque já estava fazendo algo que queria."

Além da ajuda de custos dos projetos, a mãe, que é empregada doméstica, também dava a segurança para que ela e os três irmãos pudessem continuar estudando.

Antes de atuar, Jéssica trabalhou por seis meses em uma rede de restaurantes americano e como animadora de festas infantis por dois.

Ela lembra que foi uma amiga da faculdade de teatro, que a indicou para o teste em Malhação. “Nem foi algo que eu busquei, tanto que quando saiu o resultado fiquei sem entender”, afirma. Ela não terminou o curso por conta dos testes e das gravações.

Professoras em cena

Apesar de achar que "quando o bichinho da arte morde não tem muito como escapar", Jéssica diz que poderia ser professora de história, caso não trabalhasse com cultura. Coincidentemente, essa é a profissão das suas próximas personagens.

Em "Amor de Mãe", próxima novela das 21h, a atriz será Camila, uma pessoa próxima à família da personagem de Regina Casé. "Ela é uma heroína que acredita na educação e que acredita na missão de despertar os jovens."

Juliano Cazarré, Nanda Costa e Thiago Martins também estarão no núcleo da personagem. A trama vai substituir "Dona do Pedaço" no final do ano.

Já na série de época “Filhos da Pátria”, Jéssica interpreta Lucélia, uma escrava que queria dar aulas na primeira temporada.

Na segunda temporada, que estreia em 8 de outubro, a personagem continua com o sonho de lecionar. Ela trabalha como empregada doméstica, mas não pode ser professora por causa de sua cor.

"Ela tem o sonho negado em um espaço branco e não pode ser professora, mesmo depois de aprovada no teste."

“Isso mostra o quanto o Brasil ainda está limitado”, afirma a atriz. “Enquanto tem gente que nega que a escravidão existiu, vem essa série e diz que as coisas tão muito iguais, não mudou, mudou pouquíssima coisa, na verdade”.