Brasileira em Moçambique pela ONU alerta para destruição do Idai no campo: 'Perderam colheita, enxadas e sementes'
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Brasileira em Moçambique pela ONU alerta para destruição do Idai no campo: 'Perderam colheita, enxadas e sementes'

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Além dos mortos, feridos e desabrigados, do risco de epidemias e dos danos extensos à infraestrutura de Moçambique, a passagem do ciclone Idai pelo país africano tem mais um efeito que causa muita preocupação, como destaca a brasileira Karin Manente, diretora do escritório do Programa Mundial da Alimentos (PMA) da ONU em Moçambique: o impacto sobre a a agricultura.

Nos distritos da zona rural da província de Sofala, a tragédia ganhou proporções dramáticas porque a economia é baseada principalmente na agricultura de subsistência do milho e do feijão.

“Eles perderam as plantações, os instrumentos de trabalho, as enxadas. O ciclone passou muito perto da colheita, que aconteceria em abril, maio. Então, a safra foi toda perdida. O que é preocupante é que eles também perderam as sementes para próxima safra também”, explica Karin.

Manente sobrevoou por duas vezes a área atingida pelos ventos, que superaram 170 km/h, e pelas inundações, provocadas pelas fortes chuvas que acompanharam o ciclone.

“É muito forte observar vilas inteiras sob a água. Você vê só o teto das casas e só as pontinhas das árvores. Você fica só imaginando o que está por baixo. Quando chega lá e conversa com as pessoas, elas perderam tudo”, conta a brasileira que há cerca de sete anos trabalha em Moçambique.

Mais de 7 mil quilômetros quadrados de plantações ficaram inundados após a passagem do Idai, segundo dados preliminares do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) de Moçambique. A área equivale a mais de quatro vezes o tamanho do município de São Paulo.

A cidade portuária da Beira, a segunda maior de Moçambique, ficou 90% destruída, mas, na avaliação de Karin, ela deve se recuperar mais rápido do que a área rural.

“Lá tem muita gente que perdeu tudo. Mas, de modo geral, as pessoas poderão se recuperar e retomar mais rapidamente seus meios de vida, como o comércio. A economia da cidade é mais diversificada. No campo, o problema da insegurança alimentar é maior, porque vai levar mais tempo para se recuperar”, explicou.

De acordo com dados do PMA, além do feijão e do milho, os agricultores também cultivam gergelim, algodão, mandioca e amendoim, além de verduras (repolho, alface) e legumes (quiabo). Cerca de 13 mil agricultores vão receber sementes e ferramentas para retomar seus cultivos.

Além dos ventos, as chuvas

O ciclone, que entrou no território moçambicano entre 14 e 15 de março, e atingiu ainda os vizinhos Zimbábue e do Malaui, afetando mais de 1,8 milhão de pessoas. Mais de 700 pessoas morreram e mais de 1,6 mil ficaram feridas nos três países.

“O ciclone não só trouxe muito vento, mas também provocou fortes chuvas. Depois que ele passou, continuou chovendo, chovendo. Não só na província de Sofala, mas também em uma espécie de corredor que vai até o Zimbábue”, afirma a representante do PMA.

Como choveu nas cabeceiras dos rios, que correm na direção da Beira para encontrar o mar, houve um aumento no nível de água dos rios e o consequente transbordamento.

Cinco dias depois da passagem do ciclone, 100 quilômetros quadrados ainda permaneciam inundados e 15 mil pessoas permaneciam isoladas, segundo o Ministério do Meio Ambiente de Moçambique.

Planos de contingência

Karin explica que o governo central e as províncias preparam planos de contingência para desastres naturais anualmente. “Existe um mecanismo de resposta às emergências que acontecem todos os anos, como ciclones de menor porte, inundações e secas menos severas. Esses planos de contingência funcionam bem”, conta.

“O que aconteceu dessa vez foi que o impacto foi tão grande, superou o nível de desastre para o qual o país estava preparado. As pessoas precisam entender que foi uma catástrofe”.

A resposta humanitária é liderada pelo governo de Moçambique, através do INGC, com o apoio de parceiros, como PMA, outras agências da ONU e ONGs. O PMA coordena a parte logística e distribuição de alimentos. O último balanço aponta que 945 especialistas em ajuda humanitária estavam no país.

“No centro de operações, tem ONGs, parceiros bilaterais, o Brasil vai mandar uma segunda leva da ajuda. Isso faz uma diferença grande, porque a resposta necessária é grande”, afirmou.

A representante do PMA afirma que o apelo inicial por ajuda foi de U$ 40 milhões para os primeiros três meses. “O segundo apelo por ajuda já foi de US$ 270 milhões. Desses, 140 milhões seriam atribuição do PMA arrecadar”.

Ela explica que o PMA tem um mecanismo interno que permite avançar os financiamentos enquanto os países se mobilizam para fazer as doações. “Isso possibilita que sejamos mais rápidos. Temos várias ofertas, mas ainda tem muito o que fazer”.

Antes da passagem do ciclone, o pessoal do PMA já estava posicionado estrategicamente na região para poder começar a atuar assim que a situação permitisse. Cerca de 48 horas depois do ciclone já tinham profissionais dando assistência às vítimas. Inicialmente, eles distribuíram biscoitos enriquecidos e na restauração da comunicação com a região, que teve o fornecimento de energia elétrica interrompido e torres de celular arrancadas pelo vento.

"Primeiramente, distribuímos os biscoitos enriquecidos, porque não adianta doar alimentos que precisam de algum preparo. Muitos deles não tinham condições de cozinhar. Agora estamos diversificando. Também vamos contribuir para que eles retomem a produção o mais rápido possível. Vamos atuar, por exemplo, na construção de silos para armazenamento da produção".